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GOJIRA (1954): uma análise

Gojira (1954), ou Godzilla, é um marco para a história do cinema de horror japonês, por ser o primeiro filme realizado do sub gênero kaiju.

Sci Fi da década de 50

Um ano antes, The Beast From 20,000 Fathoms apavorou os cinemas dos Estados Unidos reutilizando o tema monstros gigantes. Distante, o filme King Kong, de 1933, é considerado o inaugural do sub gênero.

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O sucesso da besta radioativa deu gás às obras kaiju e elas fizeram parte da febre popular dos filmes B de ficção científica que tomou a década de 50. Durante o pós-guerra, o padrão desejado pelo governo norte-americano aos seus governados alimentava essas produções. Assim, ideias anti-comunistas e medos atômicos se faziam presentes em praticamente todas obras comercializadas.

A população, que vivenciava dias tensos e tomados por paranoia, gostou do que assistia e toda a cultura foi alterada. No cinema, gêneros contemporâneos foram criados em base de obras originalmente escritas para ele. Um deles é a ficção científica, que com seu sucesso diante de um público mais jovem, não demorou para chegar a outros países.

O pós-guerra no Japão

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O pós-guerra no Japão foi totalmente diferente. Arrasado pelas bombas de Hiroshima e Nagasaki, o país asiático se rendeu em 2 de setembro de 1945 e, de acordo com os termos aceitos na Declaração de Potsdam, foi ocupado militarmente pelos Estados Unidos.

Os japoneses só tiveram um país independente em 1952, quando os americanos desocuparam, não por completas, suas terras. Após isso, não havia oxigênio para a infraestrutura do país respirar e a população sobrevivia em tempos de miséria.

E durante essa época nebulosa, Ishirō Honda lança Gojira. Inspirado em The Beast From 20,000 Fathoms, mas também apoiado em uma explícita metáfora sobre os sofrimentos vividos por seu povo durante aquela época.

Análise de Gojira (1954)

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Gojira, de 1954, pode ser considerado um dos mais dramáticos filmes de horror já realizados.

Não à toa, sua narrativa, iniciada com dois navios destruídos sem explicações, é envolvida por uma atmosfera melancólica e caótica. Em meio a ela, a dramática união do povo japonês. Vista em descobrir o motivo das fatalidades e em ajudar equipes de pesquisas e resgates ao longo da projeção.

Ela também se destaca por detalhes sutis do roteiro que engrandecem a metáfora principal discutida. Como na lamentação aborrecida de uma das personagens na cena de metrô em que comentam as medidas de segurança do governo, “os abrigos outra vez. Estou enojado!”. E na fotografia geral do filme.

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Os ótimos momentos de Gojira (1954)

Com Godzilla exposto logo após 20 minutos, as cenas de destruição são inúmeras. Todas muito bem realizadas e com movimentos críveis do ator por debaixo da fantasia do lagartão. A opção por utilizar mais câmeras em nível do solo, até mesmo com as maquetes, se mostrou genial. Em certos momentos, é praticamente impossível ver o monstro passando pelos edifícios. Nos quais restam apenas desespero da população, correria e muitos desmoronamentos.

Esses takes, somados aos de evacuação da população e às imagens de arquivos, fazem com o que o filme soe parecido a um documentário sobre guerra. Nisto, a fotografia preto e branco o favorece ainda mais. Transparecendo o drama que aquelas pessoas estão vivendo, apenas 10 anos após o horror que sofreram durante a Segunda Guerra Mundial.

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Para apontar outro ponto positivo entre os muitos em Godzilla, com certeza a trilha sonora merece um destaque. Primeiro, porque os seis temas musicais compostos por Akira Ifukube são consistentes e coincidentes à narrativa. Além disso, o tema principal se tornou a personificação sonora de Godzilla e um dos mais icônicos do cinema de horror.

Segundo, devido à associação que pode ser realizado do barulho das pegadas do monstro com os das explosões das bombas que devastaram o Japão. Com ele, é criado o dilema de ser avisado da chegada de Godzilla, mas também a chegada de destruição em nível nucleares.

Principais cenas de Gojira (1954)

Mesmo com limites financeiros, toda a execução do filme é muito bem realizada, inclusive a atuação e os efeitos especiais. Com isso, algumas cenas se tornaram memoráveis na história da sétima arte.

Entre elas, destaco a assustadora tomada em que Godzilla destrói Tóquio. Principalmente, quando ele se dirige à Torre Central de TV e o filme nos coloca ao lado dos jornalistas que estão ali. Após a queda da torre, ver Godzilla triunfante no mar de chamas que cidade se transformou é ainda mais pavoroso.

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Em contrapartida, a cena seguinte acentua as consequências da destruição, onde são mostrados hospitais tomados por feridos e pessoas amedrontadas. Nela, o desesperado choro de uma criança ganha importância narrativa ao ser motivo para a transformação de duas personagens principais. Emiko, com sua quebra de palavra, e Dr. Serizawa, com seu impasse existencial cicatrizado pela Segunda Guerra Mundial.

O final, ainda sem uma grande luta derradeira, é silencioso e trágico, no qual ideais do povo japonês, como o de que não se deve bombardear nem o seu pior inimigo, são expostos, junto a uma mensagem conscientizadora sobre o possível destino que as armas podem conceder à humanidade. Com certeza, um dos melhores filmes de horror já feitos.

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GOJIRA (1954) | curiosidades

  • O nome original da película foi baseado no apelido de um funcionário da Toho.
  • O famoso rugido do monstro foi criado através do atrito de uma luva de couro em cordas de um instrumento musical.
  • No aniversário de 54 anos do lançamento do filme, Godzilla ganhou uma estrela na calçada da fama.
  • O filme teve uma versão norte-americana lançada em 1956 e intitulada de Godzilla, The King of Monsters. Nela, as menções à bomba atômica foram cortadas e cenas que envolvem governo americano foram adicionadas. O trailer desta versão você pode conferir a seguir.

GOJIRA | trailer (versão norte-americana de 1956)

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